Comer junto com a criança

Comer junto com a criança

Por que comer juntos à mesa é tão difícil?

No decorrer do tempo, inúmeras mudanças históricas em nosso modo de viver nos afastaram das refeições compartilhadas. Em especial nas grandes cidades, o tempo produtivo do capital encara o tempo de refeição como perda de tempo. Celular e computador viram companheiros de mesa, e aqui nem estou falando das crianças.

As pessoas têm uma enorme dificuldade em parar para comer. A mente no presente se mistura com os prazos e os boletos a vencer. Drive-thrus, deliverys, comida pronta e um prato cheio para a enxurrada de ultraprocessados que promete comida “prática”.

É interessante pensar em como a comida em grande parte direciona a construção da nossa identidade em relação a cultura e relacionamentos. Comer à mesa é, acima de tudo, uma possibilidade de transmissão cultural e familiar. É apresentar para a criança todas as memórias afetivas que vão vir a integrar seu repertório alimentar. E como isso vem sendo feito?

O processo de urbanização e a entrada da mulher no mercado de trabalho, sem políticas públicas favorecedoras, nos arrebatam com questões de difícil solução, como a terceirização do cuidado com a infância, cada vez mais precoce. As crianças dependem de fatores biológicos para desenvolverem competências alimentares, mas acima de tudo, o que irão aprender será decorrente do meio e do tempo em que vivem. Quando a educação alimentar é terceirizada, a aprendizagem alimentar como um todo pode sofrer. E espero que você entenda que esse não é um problema apenas da mãe desta criança. Caso não entenda, deixe sua pergunta no bloco de comentários.

Comensalidade é sobre relacionamentos

A fome, por si só, não é suficiente para estruturar as competências alimentares ao longo de uma vida. Aprendemos a comer através do outro. O referencial cultural, que vem sendo esvaziado com o processo de globalização, tem tido um grande impacto na aprendizagem alimentar. As crianças, que estão mais propensas a colocar comida na boca quando outros adultos também estão comendo, estão perdendo suas referências.

E que o sistema sensorial e o exemplo são a uma porta de entrada para a criança aprender a comer, não há dúvida. Todavia, cada vez mais temos enxergado um ingrediente essencial: o prazer. E o prazer na hora da refeição vai além boa comida. É um prazer compartilhado, ou seja, não é apenas sobre o que comemos, mas como nos sentimos quando comemos – não só as crianças, como também seus pais e cuidadores.

A atmosfera do lar é a base que sustenta nossas memórias afetivas mais profundas relacionadas à alimentação. Como diz Charlotte Mason: “Não há nada no caminho do ensino direto que tenha um efeito tão amplo e duradouro quanto a atmosfera do lar. E o pensamento mais sério a respeito disso é que neste caso não há nada para aprender e nada para ensinar: a atmosfera emana de nós mesmos – literalmente somos nós mesmos, nossos filhos vivem nela e respiram-na, e o que somos é assim incorporado a eles.”

A atmosfera do lar permite que criança adquira confiança e autonomia através da observação, do cuidado e do afeto. Como adultos, somos exemplos nesses quesitos também. É através do processo de retomada na confiança em si próprio e no respeito à autonomia que a criança deveria ter sobre seu próprio corpo, que a experiência familiar se enriquece. A autonomia de cada um dos integrantes à mesa tem o potencial de permitir que todos comam com atenção e satisfação, comida quente, dividindo com prazer esse momento tão rico e diverso em experiências biopsicossociais.

“Comam juntos à mesa!”

Isso tudo significa que precisamos enxergar além da orientação “comam juntos à mesa!”. Porque para chegar nesse lugar, precisamos enxergar toda a estrutura e o sistema que afasta a família da mesa. Esse não é um problema apenas da mãe. A retomada da refeição com atenção plena é uma necessidade de cada membro que compõe a mesa, ou o ambiente social de refeição da criança.

O que é preciso questionar, acima de tudo, quais são os entraves que dificultam a retomada da refeição familiar e direcionam ações apenas para a ponta do iceberg, culpabilizando mães e crianças por comportamentos alimentares ineficientes.

Será possível, por hoje, buscar por soluções no contexto? Entre entender que é preciso comer com a criança à mesa e conseguir isso na prática, existe uma jornada. Do que você precisa abrir mão para poder dar o seu primeiro micro passo?

Aline Padovani – Fonoaudióloga, Mestre em CIências na área de Comunicação Humana e Educadora Parental em Disciplina Positiva.

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