A Introdução Alimentar ParticipATIVA, por Aline Padovani

A Introdução Alimentar ParticipATIVA, por Aline Padovani

Pra quem não me conhece, eu sou Aline Padovani, Fonoaudióloga e Mestre em Ciências na área de Comunicação Humana, pela Faculdade de Medicina da USP. Tenho aprimoramento em Fonoaudiologia Hospitalar pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, e nos últimos anos eu me tornei pesquisadora na área de alimentação infantil. O meu trabalho foca em especial na Promoção da Saúde através da Educação Alimentar, Intervenção Precoce e Tratamento da Recusa e Seletividade Alimentar na Infância. 

Eu trabalho com dificuldades alimentares desde que terminei a graduação, em 2004. Comecei minha carreira na UTI adulto, atendendo pessoas que apresentavam dificuldade para engolir, após longos períodos de intubação e traqueostomia. Eu tive a honra de ter uma mentora na USP que me conduziu para o estudo acadêmico e para a fonoaudiologia baseada em evidências. O meu trabalho dentro do Hospital das clínicas, primeiramente como aprimoranda e depois como fonoaudióloga e supervisora de alunos de graduação e pós graduação foi estruturante no meu processo profissional. Publiquei dois protocolos de avaliação na área da Disfagia, que são amplamente utilizados como referência aqui no Brasil. Hoje, mais de 15 anos depois, eu tenho a felicidade de carregar o meu propósito de vida para a minha profissão. 

Foi com a maternidade que eu conheci um método de introdução alimentar orientado pelo bebê que mudou a minha vida pra sempre. Por volta do quarto mês de vida do meu primeiro filho eu comecei a me interessar em aprender mais sobre introdução alimentar. Nessa época, eu participava de alguns grupos de mães no face e aprendi muito além do que estava escrito nos livros. Foi dentro desses grupos que eu li pela primeira vez sobre o método BLW. Achei tão interessante. Me fez muito sentido uma introdução alimentar que respeitasse os marcos de desenvolvimento do bebê.

Mas o que eu já havia estudado sobre alimentação infantil sempre partiu do ponto de vista de um adulto oferecendo colheradas de papinha para um bebê. Quando eu li sobre BLW, não conseguia acreditar que eu não ia mais precisar da peneira, liquidificador, mixer. Comecei a ver centenas de vídeos de bebês de todo o mundo comendo sólidos. Sozinhos. Eu nunca tinha ouvido falar disso e aparentemente já era um movimento bem difundido internacionalmente. Havia pouquíssima informação disponível, e a grande maioria dos textos disponíveis em portugues eram de mães adeptas a esse método.

Na época da introdução alimentar do meu primeiro filho, isso em 2014, nos consultórios de pediatria era muito raro quem falasse sobre BLW. No máximo iam falar que era moda e orientar uma sopinha. A pediatra que avaliou o Nícolas com 6 meses orientou que ele comesse meia maçã raspada na primeira semana, aumentando para uma maçã inteira na segunda. Como suplemento, orientou papa de mamão amassada com biscoito de maisena e geléia de mocotó. 

Veja, além de ser mãe, eu também sou apaixonada pela Ciência. Por isso, essas recomendações foram um balde de água fria pra mim. Como mãe, me fortaleci junto às comunidades de apoio virtual. Foi dentro dessas comunidades que comecei a enxergar inúmeras oportunidades profissionais de atuação fonoaudiológica com vistas à promoção de saúde e intervenção precoce nas dificuldades alimentares. Um vasto campo de pesquisa e atuação na promoção de saúde e empoderamento materno, ainda pouco explorado no Brasil.

Passei a analisar empiricamente a construção dos discursos sobre alimentação infantil, em diferentes esferas. Com o objetivo de reunir embasamento teórico suficiente para entender o pontos de vista apresentados pelo BLW, eu li todos os artigos científicos publicados sobre o tema, pesquisei guias alimentares de diferentes países, estudei livros das mais diversas áreas de conhecimento, entrevistei dezenas de profissionais de diferentes áreas que dividem o interesse na alimentação infantil. Passei a fazer uma análise minuciosa do comportamento das mães, dos pais e dos bebês no momento da introdução alimentar. Acompanhando os grupos de alunos, busquei compreender suas ideias e perspectivas, entendendo que sempre há algo novo para ensinar e também para aprender. Meus grupos de alunos sempre foram mistos: mães e profissionais de diferentes áreas coexistindo, com um objetivo em comum: entender como de fato os bebês aprendem a comer. Nas minhas pesquisas, notei que o conhecimento sobre prevenção de engasgos e gerenciamento das texturas sólidas era pouquíssimo fundamentado, até no livro original do BLW. Outras crenças bastante perigosas e sem respaldo científico vinham sendo difundidas na rede. Ficou muito evidente que esse era um espaço inexplorado pela Fonoaudiologia, e que a nossa atuação profissional junto às mães e outros profissionais era mais do que urgente. 

Foi assim que eu decidi começar o blog o “Tá na hora do papá”. Eu sempre amei escrever e meu sonho é continuar na área acadêmica. Só que hoje eu priorizo estar perto dos meus filhos, que ainda são pequenos. Por isso venho construindo um trabalho digital em promoção de saúde que me permite ampliar minha voz dentro da área da alimentação infantil, de forma transdisciplinar, no Brasil e no mundo. Um campo de atuação transdisciplinar tem um potencial de ação incrivelmente transformador na área da Alimentação Infantil. 

Hoje eu me orgulho de ter construído a minha história na Fonoaudiologia através da Promoção de Saúde. Desde que eu me tornei mãe, em 2014, minha vida mudou de cabeça para baixo e eu finalmente encontrei o meu propósito dentro da minha profissão. A alimentação como um processo de aprendizagem é muito pouco explorada, e tem um vasto campo de pesquisa e atuação a ser desenvolvido no Brasil e no Mundo, não somente na Fonoaudiologia, como em outras diferentes áreas da saúde e educação. O curso avançado em introdução alimentar participativa é uma grande ponte para todo esse conhecimento. 

Bom, com tantos estudos, eu estava ansiosa para colocar em prática a introdução alimentar do meu primeiro filho! Nós começamos bem, e eu via com meus próprios olhos como ele estava sendo apresentado aos alimentos. Era tão encantador! Eu estava cada dia mais apaixonada pelo processo da introdução alimentar guiada pelo bebê, vendo todo o conhecimento adquirido se desdobrando na prática.

Só que aí, sabe né, é um bebê humano. Tem dias e dias. E a gente também, né? A mãe também é humana. E Teve semana do meu bebê não comer nada, só mamar o tempo inteiro, nem tocar nos alimentos e ele queria. Eu queria muito fazer uma introdução alimentar guiada pelo bebê, mas eu também ficava preocupada, porque nunca havia visto ninguém fazendo uma introdução alimentar dessa forma. Meu coração começou a ficar angustiado. Era muito frustrante quando ele não encostava em nada. 

Por muitas vezes me vi fazendo papinha e tendo a sensação de que ia tocar uma buzina na minha orelha: peeeeeeé!! Isso não é BLW! Dizia uma vozinha incômoda na minha mente. Era um sentimento muito ambíguo, sabe. De entender o BLW, mas ao mesmo tempo entender que eu precisava de alguma forma tentar alimentá-lo. Era o que o meu coração queria fazer.

Então, como nem tudo são flores, inúmeras vezes me peguei presa na necessidade de fazer tudo 100% como dizia “o manual blw”. E você sabe, como mãe, também tenho minhas crenças, minhas experiências, um entorno familiar, meus pressupostos, necessidades… Coisas que geralmente os livros, manuais e os famosos passo a passo sobre alimentação infantil não chegam nem perto de responder. Eu me lembro que em um dia particularmente difícil, que só quem cuida de um bebê pequeno e tem privação de sono entende, foi num dia desses, que eu fiquei tomada pela raiva e gritei quando o bebê arremessou longe um pedaço de comida. 

Naquele momento, eu consegui olhar para a minha vida como uma espectadora. Como alguém de longe, que observava a cena. 

Eu havia abdicado do meu trabalho e da minha vida pessoal e cuidava de um bebê 24h por dia. Eu amamentava em livre demanda, não dormia mais do que 3 horas seguidas havia meses, e para completar, estava morando longe da minha família. Meu marido trabalhava 12 horas por dia, chegava exausto depois de quase duas horas no trânsito da zona sul pra zona norte do Rio de Janeiro, e chegava quando o bebê já tinha engatado no sono da noite. Eu estava me sentindo tão sozinha… e tão ligada ao meu filho, ao mesmo tempo… Tão cansada, fisicamente e emocionalmente. 

E na tão esperada introdução alimentar, aos poucos eu estava perdendo a essência do que eu sempre considerei mais importante, desde a gravidez: a minha conexão com o meu filho. Afeto. É eu e ele, acima de tudo. Eu o escuto, ele me dá ouvidos. Mesmo sem linguagem verbal. Eu consigo me comunicar com meu bebê. Eu sei que é possível.

Naquele dia, eu senti tanto. Me senti perdida e sem apoio. Eu precisei fazer um movimento consciente ́para me reconectar com o meu coração e com o meu bebê. Eu olhei para o meu filho e pedi desculpas, encontrando um momento de lucidez que me mostrava que eu estava me mantendo presa a uma série de regras que pouco a pouco tiravam a minha sanidade e em especial, a minha autonomia. De onde vinha essa culpa? Será que precisa ser assim?

Foi dentro de todo esse contexto que eu comecei a entender e desenhar o conjunto de fundamentos que norteiam o método de aprendizagem da Introdução Alimentar ParticipATIVA. 

Nos últimos anos venho pesquisando e desenvolvendo um material teórico-prático que nos ajuda a entender como os bebês e as crianças aprendem a comer no contexto. Independente de “método”, vem se tornando cada vez mais necessário reorganizar o conhecimento que temos sobre a alimentação infantil para uma visão multidimensional, historicamente modificada pelos processos de industrialização, urbanização e globalização. 

Pra elaborar meus cursos online, com vistas ao desenvolvimento pessoal e capacitação profissional na área de promoção da saúde, eu precisei pesquisar História, Neurociências, Sociologia, Ciência do Trauma, Teoria Polivagal, Antropologia, Desenvolvimento Sensoriomotor, Comportamento Alimentar, Desenvolvimento Socioemocional, Autorregulação e Funções Executivas, correlacionando todas essas áreas à minha bagagem teórico-prática em Fonoaudiologia, Desenvolvimento Infantil, Comunicação Humana, Alimentação, Maternagem e Parentalidade responsiva. Como Fonoaudióloga, eu sempre entendi que o método baby-led weaning carrega muito mais do que as experiências sensoriais. E que respeitar o tempo do bebê, na nossa atual sociedade, cultura e pensamento, também não é algo tão simples assim. 

Para minha surpresa, eu venho encontrando muito mais respaldo científico do que eu esperava. Através das minhas pesquisas fica óbvia a necessidade de ampliar e integrar o conhecimento sobre o desenvolvimento de habilidades de vida para a hora da refeição. É urgente pensar a alimentação de forma transdisciplinar na infância.

Esse conhecimento faz toda a diferença na condução de uma introdução alimentar saudável, não apenas do ponto de vista fisiológico, nutricional, mas também do ponto de vista psicossocial e socioemocional. Na época em que eu comecei a falar sobre alimentação e introdução alimentar, muitas pessoas achavam super estranho que uma fonoaudióloga soubesse alguma coisa sobre esse assunto. Hoje, meu trabalho é extensamente reconhecido, tenho alguns livros e capítulos publicados e faço parte do corpo docente de diferentes cursos de pós-graduação, nas áreas de Nutrição e Fonoaudiologia.  

Em 2017 eu tive o imenso prazer de fazer a revisão técnica e homenagem na contracapa do livro “Baby-led Weaning”, traduzido para o português pela editora Timo, em 2017. Estive em todos os treinamentos que as autoras inglesas Gill Rapley e Tracey Murkett fizeram quando estiveram no Brasil e tive a honra de pessoalmente conversar com Gill sobre o método de Introdução Alimentar Participativa. Foi um momento realmente único, que confirmou minhas ideias sobre a necessidade de descrever esse potencial movimento de ruptura da maternidade com as antigas ideias sobre alimentação infantil. As mídias sociais foram em grande parte responsáveis por essa reviravolta.

Eu lancei o primeiro curso sobre BLW e Introdução Alimentar Participativa em 2015 e, em 2018, já estávamos na segunda edição, com mais de mil e quinhentos alunos, entre famílias e profissionais. Entre o final de 2018 até o início da pandemia, em 2020, eu já havia viajado grande parte do Brasil levando o curso de Introdução Alimentar ParticipATIVA e Recusa Alimentar na Infância. Recife, Salvador, Fortaleza, São Luís, Manaus, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Sinop, Caruaru, Maceió, Minas Gerais, Brasília… Meus cursos sempre foram abertos e transdisciplinares, o que significa que eu troquei ideias e conhecimento com centenas de pessoas, profissionais nutris, fonos, pediatras, psicologos, terapeutas ocupacionais, pedagogas, gastropediatras, alergologistas e mães desesperadas atrás de respostas. Acima de tudo, formamos grupos muito incríveis. É impressionante a potência de um grupo de pessoas com um objetivo em comum. 

Até hoje recebo depoimentos de profissionais me contando como os meus cursos são transformadores e determinantes para o alinhamento da teoria com a prática através do afeto. 

E é assim que a Introdução Alimentar ParticipATIVA vem sendo disseminado no Brasil e no Mundo. Hoje eu me orgulho de ter criado e popularizado este método através de uma estruturação teórico-prática, baseada em literatura científica recente, que converge para as práticas de uma introdução alimentar guiada pelo bebê. Por meio de aulas gratuitas, congressos multidisciplinares e dos meus cursos online e presenciais, a denominação ParticipATIVA foi ampliada para o contexto prático e, expressada em linguagem, foi capaz de despertar o potencial de comunicação de milhares de profissionais, educadores, mães e cuidadores, com vistas à responsividade e ao protagonismo do bebê em relação ao seu próprio comer. 

E o grande problema é que um bebê que come bem, no atual paradigma alimentar da nossa sociedade, significa um bebê que come muito. Infelizmente esse pensamento acaba com a possibilidade dos bebês desenvolverem habilidades que são extremamente necessárias para manter a sua capacidade de autorregulação e todo conforto e segurança que é necessário para gerar a vontade de comer. Foi com o método de Introdução Alimentar Participativa que eu consegui que famílias e profissionais da saúde e educação conseguissem enxergar a introdução alimentar dentro de um novo paradigma, no qual enxergamos o bebê e sua família como capazes. O que virou a chave foi entender que cada família tem suas necessidades, e necessariamente irão se comportar de formas diferentes porque, simbolicamente, a alimentação é entendida a partir da construção das crenças oferecidas pela sua cultura e entorno familiar. Pensando nisso, fica claro que a comunicação na hora da refeição é extremamente decisiva para o processo de aprendizagem do comer. 

Para quem se identifica com o BLW, mas por algum motivo não existe a possibilidade de seguir o método 100% à risca, a IA ParticipATIVA pode ser uma alternativa. Liberte as famílias das regras estritas, permita que eles persistam na busca pelo respeito, confiança, autonomia e liberdade através da conexão e do protagonismo, entendendo as etapas de desenvolvimento do bebê e as necessidades da família, em especial da mãe. Ainda que exista a necessidade da oferta de alimento guiada pelo adulto, há possibilidade de ação, respeito mútuo e aprendizagem recíproca. Desta forma, espero abrir um grande espaço que acomode a realidade e a dinâmica de cada um de vocês. 

Termino o texto, mas minha história não acaba por aqui. Espero poder conversar com você de novo em breve!

Com carinho,

Aline Padovani

Eu e Baby Nick, quando começamos o blog 🙂

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