Qual a relação entre o desenvolvimento infantil e a introdução de sólidos?

Aprender a comer sólidos é uma parte natural do processo de desenvolvimento. Assim como sentar, andar ou falar. Mesmo que o desenvolvimento de alguns bebês seja mais rápido do que de outros, a sequência do processo acaba sendo muito similar em todos eles. Habilidades novas são adquiridas uma após outra, aproximadamente na mesma ordem. Assim, por exemplo, a maioria dos bebês aprende a sentar, para depois engatinhar e posteriormente colocar-se de pé e caminhar. E estas habilidades são adquiridas sem que ninguém tenha que ensiná-los – não há como forçar o desenvolvimento (ainda que você possa estimulá-lo).

O desenvolvimento do bebê é contínuo a partir do momento do nascimento. A partir dos movimentos reflexos, o bebê começa a adquirir o controle voluntário da musculatura e assimilar novos movimentos. Algumas habilidades são adquiridas visivelmente de forma lenta e gradual, outras aparecem praticamente da noite para o dia. Isso também pode variar de bebê para bebê. De qualquer forma, toda nova aquisição foi resultado da prática e coordenação de movimentos – dos mais simples aos mais complexos.

Esses princípios aplicam-se a todos os aspectos do desenvolvimento, incluindo a alimentação. Todos os bebês desenvolvem habilidades que os permitem que se alimentem sozinhos. Assim, os bebês que têm a oportunidade de alimentar-se de forma independente, irão desenvolver essas habilidades mais rapidamente do que os que são assistidos em todo o processo. As habilidades relacionadas à alimentação tendem a aparecer de maneira natural na seguinte ordem (Rapley & Murkett, 2008):

  1. Abocanhar o seio materno
  2. Estender à mão para tentar pegar objetos interessantes
  3. Agarrar objetos e levá-los à boca
  4. Explorar objetos com os lábios e a língua
  5. Morder um alimento
  6. Mastigar
  7. Engolir
  8. Capturar objetos pequenos utilizando o movimento de pinça (entre o dedo indicador e o polegar)

Ao nascer, o bebê sadio e a termo apresenta dois principais reflexos de sobrevivência relacionados à nutrição: o reflexo de procura, necessário para encontrar o seio materno e abocanhá-lo para começar a mamar, e o reflexo de sucção, que os permite extrair o leite do seio materno e deglutir quase que instantaneamente.

Até os três meses de idade, os bebês começam a procurar as mãos: conseguem vê-las e movem-nas diante do rosto para conhecê-las melhor. Suas mãozinhas fecham-se automaticamente caso qualquer coisa passe por elas. Pouco a pouco, começam a levar as mãos à boca. Nessa idade, ainda não coordenam muito bem a musculatura, então às vezes podem golpear seu próprio rosto e mostrar-se surpresos ao perceber que estão segurando algo.

Até os quatro meses, já podem esticar as mãos para agarrar algo que, porventura, tenha lhes interessado. À medida que a coordenação motora vai se aperfeiçoando, começam a movimentar os braços e as mãos com maior precisão, conseguindo agarrar objetos e levá-los à boca. Os lábios e a língua estão extremamente sensíveis e o bebê os utiliza para explorar o sabor, a textura, a forma e o tamanho dos objetos do cotidiano.

Quando chegam aos seis meses de idade, a maioria dos bebês consegue alcançar objetos fáceis de agarrar, usa toda a palma da mão para segurá-los e levá-los à boca com bastante precisão. Se o bebê tem a oportunidade de observar, alcançar e agarrar comida, a levará à boca. E ainda que pareça que o bebê está comendo, ele, na verdade, está primariamente explorando com a boca e a língua – como se fosse um brinquedo, ou objeto – e, provavelmente, não irá engolir.

Entre os seis e os nove meses de idade, o bebê adquire uma série de novas habilidades, uma atrás da outra. Primeiro, aprende a morder ou mordiscar pedaços pequenos de comida com a gengiva (ou com seus primeiros dentinhos, caso eles já tenham começado a aparecer). Rapidamente, descobre que pode manter a comida na boca durante um tempo. O tamanho e o formato da boca se modificam e o bebê já consegue controlar melhor a língua. Nesta fase, se o bebê estiver sentado direito, é muito comum que a comida caia da boca, ao invés de engolir.

Diferente do leite (seja materno ou fórmula), o qual o bebê precisa sugar e com isso o direciona diretamente para a parte posterior da boca, os alimentos sólidos tem que ser movidos ativamente no interior da cavidade oral. Quando expostos naturalmente aos sólidos, nota-se que os bebês não conseguem engolir sem antes aprender a morder e a mastigar. Isso significa que, por uma ou duas semanas, qualquer coisa que seja colocada na boca, acabará caindo. Só começarão a engolir quando os músculos da língua, das bochechas e da mandíbula estiverem melhor coordenados, permitindo a deglutição adequada. É possível que esta etapa do desenvolvimento seja um mecanismo natural de proteção contra o engasgo. Porém esse mecanismo só funciona quando é o próprio bebê que coloca comida em sua boca, ou seja, é necessário que ele tenha total controle.

Até os nove meses de idade, o bebê adquire o movimento de pinça. Assim, utiliza o polegar e o dedo indicador para capturar objetos e/ou alimentos menores. Antes que isso aconteça, é muito pouco provável que o bebê consiga levar algo muito pequeno à boca (uma uva passa ou um grão de arroz, por exemplo).

Os bebês que podem comer sozinhos em todas as refeições são expostos a múltiplas oportunidades de praticar essas habilidades e adquirem segurança e precisão nos movimentos muito rapidamente. Ao que parece, assim como caminham somente quando estão preparados, também começam a ingerir os sólidos somente quando estão prontos, desde que lhes seja dada OPORTUNIDADE!

Grande parte da investigação sobre a introdução da alimentação sólida é centralizada em quando se deve começar e com quais alimentos. Em geral, passa-se despercebido pela relação importantíssima entre o desenvolvimento infantil e a introdução dos sólidos. O método BLW fundamenta-se na premissa de que os bebês instintivamente sabem quando estão preparados para começar a ingerir sólidos, desenvolvendo de forma natural as habilidades necessárias para tal atividade.

Fonte: Rapley & Murkett. Baby-led Weaning: Helping Your Baby to Love Good Food. Ebury Digital, 2008. (Tradução livre – Capítulo 2)

Sobre a autora

Aline Padovani é docente, escritora e palestrante, fonoaudióloga de formação, com graduação e mestrado pela FMUSP/SP e Educadora Parental pela Discipline Positive Association.

0 resposta para “Qual a relação entre o desenvolvimento infantil e a introdução de sólidos?”

  1. Estou conhecendo o método pelo seu blog! Uma amiga que me indicou e estou amando! Qual a sua orientação quando vc fornece o alimento sólido, mas a criança ainda não come o suficiente! Manipula, mas ainda não é capaz de mastigar e deglutir? Você oferta o pastoso?

    1. Oi Nathalia! Que legal que você está gostando. Então, uma coisa muito importante que aprendi com a teoria por detras do BLW, com a aplicação aqui em casa e com as maes que acompanho no instagram, foi a respeitar o tempo do bebê. Manipular e não mastigar nem engolir é o primeiro passo. Aos poucos ele aprende a morder, e depois a mastigar e depois a engolir. Na sequencia natural dos eventos.
      No primeiro ano de vida o leite ainda é a principal fonte de nutrientes do bebê, então oferecer o pastoso na verdade tira do bebê a oportunidade de desenvolver habilidades naturalmente, só para engolir algo que na verdade é complementar. É muito mais interessante que ele tire o maximo proveito de todas as experiencias sensoriais ANTES que ele aprenda de fato a engolir. E – em um bebe em desenvolvimento normal – isso não leva pouco mais de uma ou duas semanas.
      Depois me conta como foi sua experiencia! Só lembrando que o método foi muito pouco estudado e que todas essas orientações tem base empírica (lógica, mas não validadas). Então vale sempre a pena pesar os prós e contras! 🙂
      Beijão!
      Aline

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