"Toda criança passa por uma fase seletiva": Será?

Infelizmente, os conceitos de dificuldade alimentar são muito generalizáveis e, por vezes, pais e cuidadores acabam vendo um problema onde na verdade não existe.
Na literatura, cerca de 25% das crianças são identificadas pelos pais como tendo algum problema alimentar. De acordo com Kerzner e colaboradores (2015), desses 25%, apenas 1% a 5% preenchem os critérios para uma dificuldade alimentar.
O desafio do profissional da saúde é em relação aos outros 20%. É extremamente necessário diferenciar as crianças que tem apenas pais e cuidadores preocupados demais (interpretação errônea de uma dificuldade alimentar), daquelas crianças que de fato tem uma dificuldade leve, mas que pode ser facilmente reconhecida e tratada.
Mas afinal, o que é esperado e o que pode ser considerado uma dificuldade?
A NEOFOBIA é definida como “a rejeição de alimentos que são novos ou desconhecidos”. Pode acontecer com todos os onívoros, e acredita-se que esse tipo de resposta tenha um papel importante para a nossa sobrevivência, nos protegendo de toxinas encontradas na natureza. A neofobia é um comportamento natural, que pode acontecer a partir da introdução alimentar e se resolve tranquilamente através de múltiplas exposições.
A SELETIVIDADE é uma nomenclatura com definições e significados inconsistentes em diferentes países. Vários critérios para a alimentação seletiva são usados na literatura. Em algumas culturas pode incluir crianças agitadas com pouco apetite. Outros entendem a seletividade como uma forma leve de um distúrbio. Geralmente, denota um problema leve ou transitório e, embora não seja considerado uma condição clínica, requer a atenção do prestador de cuidados primários.
Por isso, Kerzner e colaboradores, em 2015, propuseram o termo DIFICULDADE ALIMENTAR, um termo genérico bastante útil, que simplesmente sugere que há algum problema de alimentação. Em essência, se a mãe diz que há um problema, há um problema. A partir daí, cabe ao profissional da saúde que acompanha avaliar a criança e gerenciar, se for o caso.
 

Sobre a autora

Aline Padovani é docente, escritora e palestrante, fonoaudióloga de formação, com graduação e mestrado pela FMUSP/SP e Educadora Parental pela Discipline Positive Association.

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