Alimentação infantil: e depois da introdução alimentar?

Começo com uma importante informação: optar por uma introdução alimentar participativa, ou guiada pelo próprio bebê, não transforma sua criança em um comedor árduo de saladas e detestador de doces, como muitos imaginam. 
Pelo contrário, a ideia é que a criança possa continuar exercitando suas habilidades inatas de auto-regulação. Sinta fome e coma o quanto seja necessário para o seu crescimento e desenvolvimento. E, se for exposta a alimentos nutritivos e naturais desde o início, tenderá a apreciar esses tipos de alimentos sem grandes problemas.
Parece uma conta bem simples e de fato é, quando se trata de um bebê.  Durante os dois primeiros anos de vida, a inteligência do bebê é prática. As noções de espaço e tempo são construídas pela ação. O contato com o meio é direto e imediato, sem representação ou pensamento.
Mas assim como não existe uma idade mágica pra caminhar, pra falar ou comer, também não existe uma idade mágica pra que a criança mude de fase. E é por volta dos dois anos de idade que a criança entra em um período que Piaget chama de pré-operatório, ou estágio da inteligência simbólica.
E TUDO MUDA!!!
A criança, neste estágio, é egocêntrica, e não consegue se colocar abstratamente no lugar do outro; não aceita a ideia do acaso e tudo deve ter uma explicação (é fase dos “por quês”). Já pode começar a agir por simulação (“como se fosse”), possui percepção global sem discriminar detalhes, e deixa se levar pela aparência sem relacionar fatos.
É nessa fase que você irá perceber que a criança começa a categorizar seus brinquedos, perceber cores, formas, tamanhos e começar a diferenciá-las. A inteligência/cognição está dando um passo à frente. E assim como na brincadeira, a hora da refeição também vai sofrer interferências.
Não raramente, é onde começa a maioria das dificuldades alimentares na infância.
A criança pode começar a recusar alimentos pelas suas características, porque ela começa a associar com outras coisas além da própria experiência sensório-motora. Começam os quereres e não quererese diminui muito a disponibilidade de se provar coisas novas.
E, embora a gente saiba o quão importante é começar direito, não existe determinismo em relação ao desenvolvimento infantil. Com a conquista da autonomia, a melhora da locomoção e da linguagem, é a hora em que nossa bolha estoura e a criança passa a se interessar por outros alimentos que vão além das nossas próprias escolhas.
É a hora em que passa a recusar os verdinhos, a querer comer os doces das festas e ficar curiosa para experimentar o que os seus amigos na escola estão comendo. Nem sempre as escolhas “saudáveis”que você faria pelo seu filho.
Para uma mãe “natureba”, como costumamos ser chamadas quando dizemos que prezamos por uma alimentação infantil saudável, pode ser um balde de água fria. Mas acredite, seu filho não faz isso para te afrontar, e não, a culpa não é sua. Apenas precisamos reconectar nossa frequência e, como eu sempre digo, nos conectar com essa nova fase de desenvolvimento da criança. Sabendo o que esperar, fica mais fácil entender como lidar e passar por mais essa fase sem grandes problemas para carregar.
Eu tive muitos desafios durante essa transição com o meu filho mais velho, e me senti completamente perdida no momento em que minha “bolha de segurança” estourou. Ele não comeu doces até os dois anos, e depois que experimentou ficou maluco! Ele gosta tanto, mas tanto que um dia cheguei a ficar triste e chateada comigo mesmo por ter acontecido isso. Com a restrição, veio a compulsão. E por inúmeras vezes vi meu filho comendo chocolate exageradamente, pois ele sabia que eu não iria permitir que ele comesse novamente tão cedo. Foi um momento extremamente difícil.
Por um lado, o fantasma da obesidade e o medo assombroso do açúcar, dito como veneno. Que mãe eu seria deixando meu filho comer açúcar?
Por outro lado, o medo da compulsão e dos transtornos alimentares. Que mãe horrorosa eu estava sendo, transformando meu filho em um comedor compulsivo!
Foi ESTUDANDO sobre desenvolvimento infantil que eu aprendi a dosar meu comportamento, dando espaço e oportunidade para meu filho ser ele mesmo, sem exageros ou restrições. Venho enxergando cada vez mais quanta responsabilidade temos com a nossa própria relação com a alimentação. Somos modelo, lembra?
 
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Sobre a autora

Aline Padovani é docente, escritora e palestrante, fonoaudióloga de formação, com graduação e mestrado pela FMUSP/SP e Educadora Parental pela Discipline Positive Association.

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