Até quando vai a introdução alimentar?

Promoção de saúde tem sido um dos meus principais focos de atuação fonoaudiológica no momento e esse é o ponto de partida para o artigo de hoje. Eu venho batendo na tecla de que é extremamente mais fácil e prazeroso trabalhar com uma família durante a fase de introdução alimentar – e é quando se inicia a Educação Alimentar. Mas até quando vai a introdução alimentar? 
No campo de estudo da Nutrição, entende-se que os primeiros anos de vida de uma criança, especialmente os dois primeiros, são caracterizados pelo crescimento acelerado e enormes aquisições no processo de desenvolvimento necessárias para a alimentação. Isso inclui as habilidades para receber, mastigar e digerir outros alimentos, além do leite materno, e o autocontrole no processo de ingestão de alimentos, para atingir o padrão alimentar cultural do adulto.
Então até os dois anos (aproximadamente), espera-se que a criança esteja comendo uma variedade de alimentos, em suas diferentes formas, texturas e sabores. Espera-se que seja capaz de solicitar comida quando tem fome e que recuse ou pare de comer espontaneamente quando se sente saciada. O paladar vem se formando desde a gestação e é provável que a criança já tenha um repertório alimentar no qual se basear.
Não coincidentemente, a introdução alimentar tem uma parte importante na Teoria dos Primeiros Mil Dias do Bebê. Esse é o período de maior formação de novas conexões cerebrais durante o desenvolvimento, e hoje sabemos que é dependente de uma série de fatores, tanto intrínsecos (biológicos) como extrínsecos (ambientais).
Os dois primeiros anos de vida do bebê, segundo Piaget, também são caracterizados pelo intenso aprendizado sensório-motor. Isso significa que o bebê descobre o mundo através das suas experiências sensoriais, por meio da ação. Então, para aprender, o bebê precisa interagir com o meio. Por isso eu falo tanto em dar oportunidades! Nesse caso, esse é nosso principal fator extrínseco.
Durante a fase sensório-motora, o bebê é um potencial explorador. Absolutamente tudo lhe chama a atenção e, com o avanço no desenvolvimento motor, ele consegue começar a levar o que lhe chama a atenção até a boca, que é quando se inicia o período de reconhecimento externo. Essa fase é chamada por Freud de Fase Oral.

A fase oral tem início no momento em que o bebê nasce até completar um ano, aproximadamente. A boca é o primeiro meio de contato com o mundo que o rodeia, e por meio dela o bebê experiencia dor, frustração e satisfação, através de pulsões orais. O seu principal objeto de desejo é o seio materno, que proporciona alimento e satisfação. Sugar, morder, mastigar e comer são sinônimos de prazer, independente da fome. A fase oral é também marcada pela ligação entre a mãe e o bebê e se caracteriza por ser o período em que a base da personalidade e o ego são formados.
Ainda de acordo com a Teoria Piagetiana, a partir de reflexos neurológicos básicos, o bebê começa a construir esquemas de ação para assimilar mentalmente o meio. A inteligência é prática. As noções de espaço e tempo são construídas pela ação. O contato com o meio é direto e imediato, sem representação ou pensamento. Então, por exemplo, o bebê pega o que está em sua mão; suga o que é posto em sua boca; o que está diante de si. Aprimorando esses esquemas, é capaz de ver um objeto, pegá-lo e levá-lo a boca. E assim por diante.
É aí que entram o BLW e a Alimentação Participativa, como propostas de promoção da saúde e educação alimentar. Quando tiramos o bebê do papel passivo de sua própria alimentação, e passamos a ter um agente ATIVO, que interage, aprende e assimila os esquemas de alimentação (e não só de ingestão) através de suas próprias experiências, passamos a considerar a introdução alimentar em uma perspectiva muito mais ampla e funcional.
tnhp
introdução alimentar sob diferentes pontos de vista

Nessa perspectiva, a apresentação de um alimento em formato de finger food passa a ser um mero detalhe, cujo objetivo vai muito além de “deixar o bebê brincar com a comida”. A interação e a descoberta do mundo para o bebê é feita através da experiência! É importante separar o que é dar comida na mão e o que é BLW e alimentação participativa, de fato.
Assimilar o BLW significa entender o conceito de prontidão. Gradativamente as habilidades motoras vão dando maiores oportunidades dele interagir com o meio, assim como as habilidades motoras orais começam a dar maiores oportunidades dele interagir com o alimento dentro da boca. Tendo oportunidades de aprendizagem, em pouco tempo o bebê consegue se auto-alimentar com eficiência também. Aos poucos, assimila que o momento de interação com a comida, além de divertido, também mata a fome. E é ainda um poderoso momento de socialização.
E isso não vai ser de uma hora pra outra. Você pode confundir a criança se ora você assume que ela tem autonomia ora você assume que não, e faz ela engolir comida a todo custo. Nesse contexto, ora eu tenho autonomia ora não, a criança pode sim acabar demorando mais tempo pra assimilar que quando tem autonomia também é capaz de saciar sua própria fome. Então é rever todo o processo e não somente uma situação específica em que a criança tem contato com um alimento no formato original. Interagir com o alimento propicia ao bebê uma série de informações sensoriais essenciais no desenvolvimento da sua relação com a alimentação, a longo prazo.
Conhecer sabores e texturas distintamente e poder relacioná-los com uma série de outras informações sensoriais está diretamente ligado à preferência por determinados tipos ou grupos de alimentos, por exemplo. Por isso, como intermediadores, acabamos falhando ao considerar que a única chance de interagir ativamente com um alimento em seu formato original seria “praticando a mastigação” com um biscoito doce ou um pedaço de pão. Muitas vezes, esse é o único meio pelo qual a criança interage ativamente com o alimentos durante a fase de introdução alimentar.
apresentação dos alimentos (2)
1 – A famosa “papinha marrom”, com informações sensoriais praticamente nulas. 2 – Papinha com pedaços, típica da introdução alimentar tradicional, com informações sensoriais limitadas e sobrepostas. 3 – Exemplo de apresentação de um prato na Alimentação Participativa, com alimentos separados e levemente amassados, com a possibilidade do bebê pegar caso tenha interesse. 4 – Exemplo de apresentação dos alimentos no BLW, com alimentos no seu formato original.

A modulação motora oral também começa a se formar ativamente durante essa fase, através da mordida, mastigação e deglutição. Como qualquer outro esquema motor, é extremamente ligado ao número de oportunidades. Se uma criança não aceita alimentos duros aos 3, 4 anos de idade, é bem provável que seja porque ela não tenha sido exposta a este tipo de alimento em sua janela de oportunidade. Ou seja, a questão não é não querer, mas nem saber o que fazer com aquilo dentro da boca.
Da mesma forma, todas as atitudes e hábitos aos quais o bebê é exposto durante essa fase são a base da construção de sua relação com a comida. Se um bebê assimila que ele pode colocar na boca e cuspir, ou simplesmente rejeitar (não pegar) o alimento, deixando-o de lado, ele internaliza positivamente a situação. Posteriormente, no campo simbólico, desenvolve a habilidade de provar coisas novas e diferentes sabendo que ele pode simplesmente não comer se não quiser.
Mas assim como não existe uma idade mágica pra caminhar, pra falar e pra comer, também não existe uma idade mágica pra que a criança mude de fase. Esse é o nosso fator biológico, então a introdução alimentar e a janela de oportunidades “até os dois anos” é uma idade aproximada e pode variar muito de criança pra criança.
Assim, por volta dos dois anos, a criança entra em um período que é chamado de pré-operatório, também chamado de estágio da inteligência simbólica . Caracteriza-se, principalmente, pela interiorização de esquemas de ação construídos no estágio sensório-motor. 
A criança, neste estágio, é egocêntrica, e não consegue se colocar abstratamente no lugar do outro; não aceita a ideia do acaso e tudo deve ter uma explicação (é fase dos “por quês”), já pode agir por simulação (“como se fosse”), possui percepção global sem discriminar detalhes, e deixa se levar pela aparência sem relacionar fatos.
Nessa fase, você irá perceber que a criança vai começar a categorizar os brinquedos, perceber cores, formas, tamanhos e começar a diferenciá-las. A inteligência/cognição está dando um passo à frente. E assim como na brincadeira, a hora da refeição também vai sofrer interferências.
É a hora que a criança começa a recusar determinado alimento por causa da cor, por exemplo. Porque ela começa a associar com outras coisas além da própria experiência sensório-motora. Pode associar o verde à algo ruim, por exemplo, principalmente se baseando em modelos próximos (amigos ou família).
Nessa fase, com a compreensão de linguagem melhor, ela tende a expressar sobre o que quer comer e o que não quer também. Tem uma coordenação motora fina muito melhor para manejar e entender pra que servem os utensílios e é muito provável que, se já não estiver usando, passe a se interessar por eles.
O boom de linguagem traz junto a nomeação dos alimentos, e podem começar a surgir alguns adjetivos, dependendo do grau de desenvolvimento da linguagem… bom, ruim, quente, frio… Coisas simples mas que já são um avanço e tanto pra caracterizar sua interação com os alimentos.
Por isso, nessa fase, trabalhar com uma criança que começou a introdução alimentar de forma inadequada é mais difícil. Porque começam os quereres e não quereres e diminui muito a disponibilidade de se provar coisas novas. Nada que não dê pra “consertar”, apenas mais difícil, porque ela já assimilou muitos hábitos e padrões e o modo de interagir com o mundo mudou completamente.
Então por exemplo, quando uma mãe me manda um e-mail dizendo: “Aline, meu filho tem 2 anos e meio e só come tudo papa, não aceita sólidos, posso fazer seu curso?”. Eu digo, “não, gaste esse dinheiro com uma nutri, uma fono – e talvez uma psicóloga, dependendo do caso!”. Nesses casos, um atendimento multiprofissional especializado é fundamental.
Vale lembrar que o próprio Ministério da Saúde ressalta que a introdução dos alimentos complementares deve ser lenta e gradual. É comum que a criança rejeite as primeiras ofertas, pois tudo é novo. Mas é importantíssimo lembrar que, no início, a alimentação deve complementar o leite materno e não substituí-lo. Portanto, a introdução das refeições não deve substituir as mamadas no peito.
Há crianças que se adaptam facilmente e aceitam muito bem os novos alimentos. Outras precisam de mais tempo, não devendo esse fato ser motivo de ansiedade e angústia para a família. No início da introdução dos alimentos, a quantidade que a criança ingere pode ser pequena. Após a refeição, se a criança demonstrar sinais de fome ela não só pode, como deve ser amamentada. Aproveite! Aproveite essa fase em que a alimentação ainda é complementar para dar OPORTUNIDADES DE APRENDIZAGEM. Te garanto que vai valer a pena! 🙂
Referências:
http://www.redeblh.fiocruz.br/media/10palimsa_guia13.pdf
http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira.pdf
http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/01/28/mil-dias-que-valem-uma-vida/
http://educacao.umcomo.com.br/articulo/as-fases-de-desenvolvimento-da-crianca-segundo-freud-21944.html
http://pedagogiadidatica.blogspot.com.br/2008/11/teoria-de-piaget.html
http://pedagogiadidatica.blogspot.com.br/2008/11/construtivismo-em-piaget.html
http://educacaoemnutricao.com.br/site/wp-content/uploads/2014/03/Os-aspectos-simb%C3%B3licos-da-alimenta%C3%A7%C3%A3o1.pdf
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Sobre a autora

Aline Padovani é docente, escritora e palestrante, fonoaudióloga de formação, com graduação e mestrado pela FMUSP/SP e Educadora Parental pela Discipline Positive Association.

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